Naquele dia, eu estava vivo

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Ás vezes tenho vontade de te chamar assim:
meu amor.
Não como quem pede um copo de água da cozinha
assim:
“trazes-me um copo de água da cozinha, meu amor?”
Mais como quem percebe toda a dor que te vai no corpo,
que entende todos os ossinhos que te doem
(ainda que sem conhecimento algum de anatomia).
E então eu digo assim:
“meu amor…”
E cabem nas reticências todas as ternuras que possuo.

O verbo é correr

O que é que persegue alguém
que persegue a perseguição de um sonho?
Será perseguição de facto,
ou a fuga assustada de um futuro enfadonho?

Será perseguida a ilusão
da qual a sanidade abriu mão?
Que na verdade,
o futuro da idade
contém antes da saudade,
ainda o que faz mexer o coração.

Mas a vida, caminho confuso,
não faz caso da razão
nem tão pouco do coração.
E fica para sempre a dúvida,
pairando no tempo:
será que é fuga ou perseguição?

Março 2015

Dim

I feel like a ghost again.
No colour, no form,
just a rumour in the post
again.

I am part of no one’s history
Just a flash in their memories,
shapeless
nameless
I’m nowhere to be found.
Not whole, at least.

I left my colours all around,
(my dim, cheap colours.
They’d last longer, otherwise)
I have none left with me.
I’m colourless. Formless. A ghost.
I am a ghost.

na-tu-ral: ao jeito dos iogurtes

Pus-me muita naquela carta.
Nua.

Escrevi a carta sem roupa.
Não sei se do calor
ou se por acreditar que é ao natural
que a comunicação fluí melhor.

Mas agora nem sei bem o que fazer com o que sobrou,
tenho o corpo vazio.
Contínuo nua e é isto que flui.
Acho que não me sobrou muito.

Será que isto é Física?
Uma pessoa fornece-se ligeiramente a outra
(i.e. por carta, telegrama ou pessoalmente, até)
e depois
se a outra não se lhe fornecer também um pouco
fica-lhe a faltar um bocado.

É um bocadinho egoísta a Física.
(e eu que achava os iogurtes tão altruístas…)