Se eu puder

deitar a cabeça no teu colo
deitar a cabeça nas tuas pernas

As tuas mãos nos meus cabelos

Aliás

As tuas mãos nos meus cabelos
e nos meus braços

E

se

eu

puder

Deixar que a água limpe
As impurezas que tenho dentro

 

A terra acumulada nas mãos

A terra acumulada nas dobradiças do corpo

A terra acumulada nas dobradiças dos joelhos e dos olhos

 

e

também

no trato digestivo

mas

principalmente

(embora pareça inexplicável é bastante explicável)

no aparelho circulatório
nos vasos sanguíneos

A terra que tenho acumulada nos vasos sanguíneos

 

Então

se eu puder

ficar aqui

Enquanto a água vem e limpa

Enquanto a água vem e vai e limpa

 

E as tuas mãos nos meus cabelos

Aliás

nos meus cabelos

nos meus braços

nos meus vasos

 

Se eu puder

deixar que água corra

e limpe todos os meus sistemas corporais

 

Terei restabelecido a força das minhas cavidades viscerais

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Amor e sazonalidade

Tenho pensado muito nisto das estações do ano
Repetidas, infinitamente, até à loucura.
A mãe agora é inverno.
É sempre inverno.

E eu que sempre procurei por ti
na primavera,
deparo-me
com a caducidade irrevogável
da tua carne.
Sem verde,
sem flores,
sem pássaros.
Só um rasto
do que um dia existiu em verso.
Era bonito, dá para ver.

O inverno ama-se numa só palavra:
compaixão.

“E todo o caminho deu no mar”

O mar
o mar
o mar
O mantra repetido que nem ondas
e a aconchegante violência
do seu infinito azul invernal.

Também és bonito no inverno,

disse-lhe.

Respondeu-me que é sempre as estações todas.

Foi assim que ele disse:
Eu sou sempre as estações todas.

E eu pus-me a pensar na infinitude atemporal que existe em cada um dos 7 mil milhões de oceanos.

O título roubei ao Dorival Caymmi.

Ele disse:
– Eu sinto exatamente o mesmo que você.

 
Acho que quando os antigos nomearam o coração para órgão responsável pelo amor, já deviam saber do oxigénio nas células todas. O amor leva oxigénio a todas as extremidades, do corpo, das montanhas e das cidades. Sim, é isso mesmo, o amor transforma a gente em árvores. É assim que contribui para a re-florestação do mundo.

Espelho teu

No espelho,
a tua cara retratada.
De olhar alegre,
despreocupada
sorri,
mas não diz nada.

(eu não sabia, mas
sou eu que te imito
na procura dos poemas em todas as janelas)

Em tons de cinza, vês
o teu retrato
adulterado.
O ar denso torna-o pesado.
O dia é triste,
o céu cansado.

Embaciados,
os contornos
da dor que foi
adivinham formas
da dor que é.

Eu vejo-te
Eu,
vejo-te.
Podes olhar:
sou eu o teu espelho
E vejo os poemas em todas as janelas.