quarta-feira

Se fechar os olhos,
vejo-te ao fim do dia à minha espera
de pincéis e revistas na mão,
pronta a colar no papel a Primavera.

Estás tão bonita.
És sempre tão bonita
quando montas a mesa e as luzes na varanda
e me convidas à inspiração.
Ainda hoje tenho dificuldades
em acreditar na tua terrestrialidade:
Nos meus olhos fechados,
possuis o nevoeiro das divindades tropicais,
feitas de verde, liberdade e de espíritos.
E eu, hoje,
faço-me um bocadinho dessas três coisas
porque é quarta-feira
e tu olhas para mim com nevoeiro nos olhos.

Santo Antão II

Não é que eu acredite em bruxas,
Ou que saiba qual é a definição
que vem no dicionário da palavra:

bruxaria

Mas eu desconfio que Santo Antão não é deste mundo.
Há algo no ar de profundamente diferente,
profundamente novo.

O ar respira-se mais facilmente.
Entra sorrateiro pelo nariz,
sem ninguém dar por ela,
oxigenando o sangue de céu,
maresia
e todos os tons de azul que a ilha se lembra de inventar.

O corpo também flui mais facilmente
apesar de subir a custo pelas montanhas
e descer a medo pelas encostas,
não tem dúvidas que é por ali o seu caminho.

E nisto,
a alma,
passeia livre (e leve)
pelo alto das montanhas
livre do peso deste mundo terrestre,
leve do corpo
que tantas vezes não consegue deixar
e passeia,
só,
dançando entre as bruxas.

Julho 2016