Espelho teu

No espelho,
a tua cara retratada.
De olhar alegre,
despreocupada
sorri,
mas não diz nada.

(eu não sabia, mas
sou eu que te imito
na procura dos poemas em todas as janelas)

Em tons de cinza, vês
o teu retrato
adulterado.
O ar denso torna-o pesado.
O dia é triste,
o céu cansado.

Embaciados
os contornos
da dor que foi
adivinham formas
da dor que é.

Eu vejo-te
Eu,
vejo-te.
Podes olhar:
sou eu o teu espelho
E vejo os poemas em todas as janelas.

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quarta-feira

Se fechar os olhos,
vejo-te ao fim do dia à minha espera
de pincéis e revistas na mão,
pronta a colar no papel a Primavera.

Estás tão bonita.
És sempre tão bonita
quando montas a mesa e as luzes na varanda
e me convidas à inspiração.

Ainda hoje tenho dificuldades
em acreditar na tua terrestrialidade:
Nos meus olhos fechados,
possuis o nevoeiro das divindades tropicais,
feitas de verde, liberdade e de espíritos.
E eu, hoje,
faço-me um bocadinho dessas três coisas
porque é quarta-feira
e tu olhas para mim com nevoeiro nos olhos.

Santo Antão II

Não é que eu acredite em bruxas,
Ou que saiba qual é a definição
que vem no dicionário da palavra:

bruxaria

Mas eu desconfio que Santo Antão não é deste mundo.
Há algo no ar de profundamente diferente,
profundamente novo.

O ar respira-se mais facilmente.
Entra sorrateiro pelo nariz,
sem ninguém dar por ela,
oxigenando o sangue de céu,
maresia
e todos os tons de azul que a ilha se lembra de inventar.

O corpo também flui mais facilmente
apesar de subir a custo pelas montanhas
e descer a medo pelas encostas,
não tem dúvidas que é por ali o seu caminho.

E nisto,
a alma,
passeia livre (e leve)
pelo alto das montanhas
livre do peso deste mundo terrestre,
leve do corpo
que tantas vezes não consegue deixar
e passeia,
só,
dançando entre as bruxas.

Julho 2016